Faz hoje um mês.
Como temática para este texto, lembrei-me de partilhar uma pequena dose de "dia-a-dia" em Marrocos, procurando os pormenores mais extravagantes, face a Portugal. Haja paciência, é fim de tarde de Sábado, está a chover em dose elevada e eu fiquei fechado no meu gabinete, sem vontade de apanhar uma gota que seja.
Andei a queixar-me que não via escorpiões por cá, e esta semana vi 4. Parece-me que os gatos começam a desleixar-se e em vez de caçá-los, preferem uma boa preguiça nalgum canto de escritório. Mal habituados.
Um desses biscoitos do deserto, ia sendo pisado por uma havaiana (foi mesmo por pouco). Realmente já começava a grangear alguma fama por ser um dos poucos (senão mesmo o único, agora que estou a pensar bem) que à hora do jantar, decide por uns calções bem largos e passear no estaleiro como se viesse da praia. Apesar de passar por "tough guy" ou apenas por "tontinho" achei que esta história de espetar um biqueiro num escorpião enquanto quase-descalço, pode ser engraçado mas não faz o meu género, daí ter desistido da indumentária. O que calha bem porque já percebi que nesta fase, um dia aparentemente "bom" transforma-se numa trovoada numa questão de 10-15 minutos.
Isto levou-me a outro dilema, continua calor e se trouxe uns calções daqueles caqui, mesmo confortáveis, porque não os posso usar? Bom a questão é complicada, dado que não me estou a ver com umas botas e uns calções. Não é que fique mal, mas não iria conseguir parar de pensar que em vez do "duro das havaianas" estava transformado no David Attenborough do estaleiro que está na construição o troço de Chichaoua - Argana. Estou um pouco neutro neste aspecto, ainda não decidi como vou resolver.
Cheguei a lamentar-me por não ter uma máquina fotográfica para imortalizar o meu primeiro escorpião magrebino, mas foi preciso esperar apenas até à manhã seguinte para uma encomenda à porta do meu gabinete
São mesmo apetitosos. É quase como um peluche.
O fenómeno intensificou-se e de repente estava a vê-los um pouco por todo o lado.
Entretanto a chuva parou. Durou tempo suficiente para escurecer por completo e fazer disparar o gerador de electricidade duas vezes. Desconheço se esta zona no sopé do Atlas é propícia a fenómenos de micro-monção (que eu duvido porque o vento fresco do mar teria de fazer duas horas de estrada com curvas desde Agadir), mas a verdade é que a chuva é muito intensa. Apesar de ser pontual, consegue ser inesperada. De há uma semana para cá que tem chovido dia sim, dia não, à noite, com muita força mas durante curtos períodos de tempo (este texto começa a ganhar contornos sinuosos). Era suficiente para uma pessoa acordar a pensar que não ia encontrar nada de pé no dia seguinte, mas quando se saia de manhã nem se notava. Era intrigante.
Até à noite de hoje.
Já tinha ouvido falar de trovoadas em África. Com alma, com fúria, com vontade de saciar todo e qualquer bocado de terra que ainda se queixasse de secura. O facto de eu achar que a minha casa desta vez não iria mesmo resistir, fez-me crer que assisti a um desses fenómenos. Mas foi com alguma naturalidade que no dia a seguir ouvi logo um experiente "não, apesar de tudo não foi das piores". Porque onde quer que uma pessoa esteja, existe sempre um maduro (um "the most" como diria o Mourão) que viu, viveu e sentiu muito pior que aquilo que consideramos completamente imbatível. E eu vou fazer igual (estarei já?). Inevitavelmente vou contar esta e outras trovoadas, com feracidade suficiente para que os meus netos pensem que o avô realmente esteve debaixo do dilúvio que obrigou Noe a construir a Arca.
A pergunta que se impôe é, "Não há registos de destruição?". Como não vos interessa ver planos de betonagem cancelados, planos de topografia furados ou ainda recepções de fiscalização adiados, decidi dar um passeio pela obra para fazer um ponto de situação dos estragos, enquanto tirava algumas fotografias.
Mas o Prémio Aquaparque tinha de ser entregue a este candidato fortíssimo, a excelentíssima Obra Hidráulica nº 54

Que no dia 19/9 apresentava esta apreciável forma..
..e no dia 20/9.
Numa demonstração inédita, decidi filmar parte do caminho no regresso ao estaleiro.
Tratam-se de registos merecedores de alguma atenção no Festival de Veneza.
Um especial agradecimento a esse grande senhor da música, o francês Saint-Germain, por ter servido de inspiração e companhia ao longo de mais uma caricatura do dia-a-dia de cá.
SG nunca mudes, obrigado.
9 comentários:
agora imagina a passeata de jipe se tivesses mãozinhas...
e finalmente... A CARA.. O ROSTO! tas de boa saude meu amigo, sem barba, com uma camisinha ralph lauren .. assim sim .. no meio do nada mas com estilo!!!
8 dias.... CALMA!!!!
Nao me posso deixar africanizar.
A ideia é estar num ermo, mas com classe.
É SÓ CASCAIIIIISSSSSSSSSS....!!! és mm betinho!!!
(és lindo)
Concordo que as filmagens são dignas de qualquer festival cinematográfico,mas as curvas acompanhadas do comentário "ai caraças" podem fazer mal ao sistema nervoso da (querida) mãezinha !...
Quanto ao facto de haver sempre alguém que passou por experiências mais intensas,fez-me lembrar um familiar (próximo)...
Mãe !! Estava tudo controlado !Muitos beijos !!
Um apontamento para o Paulineiro:
estou à espera que venhas cá mostrar como se conduz, mas só um pormenor: há muita polícia
como diria o grande agente de autoridade, Sr. Guarda Canedas da GNR da Mealhada "Sô Santos... assim não"
Dá gosto ver que há "maduros" que mantêm sempre a postura em qualquer tipo de habitat.Prazer em vê-lo em bom estado abc
Amigo, gostei de te ver em boa saúde.
Só imaginava o que farias nesses terrenos com o teu fabuloso SMART!
Um grande abraço, e continua pelo bom caminho.
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