A vida tem destas coincidências engraçadas (quase bizarras convenhamos).
Há cerca de 1-2 anos tive o prazer de trabalhar com pessoas fantásticas, com quem aprendi muito e compreendi a grande força de trabalhar em equipa. Dos muitos temas que se falavam, um dos mais recorrentes era o da "viga de lançamento de Marrocos", projecto apetecido para um cliente muito estimado, num trabalho de elevada responsabilidade e visibilidade garantida. O que ninguém poderia imaginar é que eu estava inocentemente a ajudar a preparar a minha vida futura.
Hoje sei um pouco mais de Marrocos, conheço na pele o que é viver num estaleiro em pleno deserto, longe das pessoas de quem gostamos, longe da vida a que estamos habituados e que consideramos "normal". Já vou sabendo o que é ter um quotidiano virado exclusivamente para a produção, para a criação, para o trabalho. E não é fácil. Morro de saudades de tudo.
Se eu na altura soubesse o que sei hoje não teria achado que o projecto de Marrocos, com a sua auto-estrada fabulosa, viadutos fantásticos e o seu túnel único na região, seria "não assim tão difícil". Mas é. E não é de estranhar que quando vi o Ricardo na companhia de um engenheiro malaio, em pleno estaleiro da Tecnovia Internacional, senti uma fortíssima sensação de felicidade, embora não desfazendo este último (que é impecável e super simpático), podia ter vindo ou não que naquela altura era completamente indiferente. A verdade é que estava ali um amigo cuja primeira frase foi qualquer coisa como "epá, tu estás mesmo no fim do mundo.. quer dizer.. isto até é um pouco para lá disso". De repente estava em casa !
Um pequeno "à parte", porque é possível que algumas cabeças já estejam a questionar "Malaio..?". Há várias formas de erigir uma ponte ou um viaduto, sendo o uso de "viga de lançamento" a que melhor se adapta à nossa obra. Assim a Tubus estudou e preparou o contacto com uma empresa especialista no assunto, para o fabrico e apoio na montagem de um monstrinho destes
Foi-nos posto à disposição um supervisor para apoiar todo o processo, tendo-nos calhado uma pessoa nascida na Malásia, ponto final. Uma nota, a nossa viga não é azul-cueca mas sim cor-de-laranja, claramente mais adequado ao local.
Apresentações feitas, decidimos ir dar uma volta rápida à obra (por "rápida" estou a referir-me a 1h30 de passeio em 40 km de pistas de terra). A cara do engenheiro malaio estava de filme, o que me levou a pensar que apesar de ele ser um trota-mundos, lhe escapou fazer um viaduto no meio do nada. No dia seguinte "a coisa" melhorou um pouco e houve direito a fotografias de elevado gabarito, ao estilo "jantar de família"
Tive oportunidade de mostrar ao Ricardo o que de melhor se faz por cá com o escoramento K-Lock e que qualquer pessoa que trabalhe na Tubus teria muito orgulho em apreciar. É todo um mercado que há para explorar, então agora que os lofts estão muito na moda. E ter um no meio do deserto é sofisticadíssimo.
A nível de emoções julgo que o Ricardo levará para casa algumas:
o levantamento popular na obra com o seu único elemento a fechar a passagem para o pilar P1 (nem quero imaginar como é que ele terá saído hoje de lá..)
o trânsito em pleno deserto
célebre passeio em Imintanoute (esse sim! Não há como descrever só vindo cá)

A emoção-rainha vai para uma manobra com animais cujo principal interveniente tem alguma (toda a) culpa. Estava eu a cirandar pelo estaleiro e eis que vejo um gato a brincar com qualquer coisa estranha. Imagine-se o choque, era um escorpião. Decidi ir chamar o Ricardo e o João (meu colega cá) porque um fenómeno daqueles não é propriamente todos os dias que se vê. Como a maior parte das pessoas sabe, começou a minha mente "protectora dos animais" a trabalhar, e se por um lado não queria matar o escorpião (ocorreu-me salvá-lo e mandá-lo para longe, só não sabia como), por outro estava com medo de que ele fizesse mal ao gato (e parecia iminente). A cena nunca pareceu completamente controlada (e ninguém me tinha mandado estar em cima do acontecimento), mas foi quando o gato decidiu apanhar o escorpião com a boca que as coisas animaram, dado que o segundo tentou picar o primeiro, tendo este atirado a presa para longe. Imaginem ver um ser daqueles a voar na vossa direcção. Não sei se foi por ver três homens a darem um salto para trás, mas o escorpião lá teve algum bom-senso e "apenas" me bateu nas calças (nao foi na barriga por um triz). Numa reacção a frio (que naquela altura nao havia cá protecção dos animais, pelo menos daqueles, e muito menos depois de me terem atentado contra a vida) acabei por matá-lo. O gato ficou um pouco estranho (e coxo) e suspeitamos que ele poderá ter sido picado (mas hoje estava bom que eu certifiquei-me).

Foi conversa para o resto da noite !!
Informação de última hora:
Entre o dia 1 e 6 de Outubro, a vossa paz será abalada com as minhas mini-férias em Portugal. Este pasquim cultural estará em stand-by, nessa altura.
ABRAÇOS
3 comentários:
faz me so um favor.. mantem te calminho até dia 1 sff.. nao falta assim tanto!
Caro amigo, é verdade tenho muita honra em ter sido o primeiro a visitar-te, foi um prazer ver o meu miúdo a tratar os escorpiões por "tu". Acho que em todo esse terreno verdejante deverás ser o único protector de animais...
Depois de passarmos pelas metrópoles europeias e termos conhecido as catacumbas de Madrid, bem mais agressivas que o deserto, cá estamos nós e o malaio, que com muito carinho deixei na tua companhia, neste super projecto que nos trará o reconhecimento de toda a comunidade Marroquina (ou pelo menos do senhor que nos vendeu os plásticos!!!).
Já agora como está o Ronaldo de Imitanoute??? acho que o teu Porto quer contratá-lo mas só depois do Ramadão!!!!
Meu caro esqueci-me de uma coisa. Então andas aqui a publicar um restaurante giríssimo em Marrakech e depois levas-me a um sítio que se chama Voyager, em que só param marroquinos com ar suspeito e camiões enfeitados de árvores de Natal???
Já que não me convidas, no próximo mês é lá que me vais pagar o jantar!!!
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