"Ouvrages de Génie Civil" é o nome que se dá ao trabalho que um "Ingenieur Civil" faz num país francófono. E soa bem. Em Portugal apesar de nos exigirem "engenho" (génese da palavra engenharia) na resolução de problemas, ninguém nos fala na palavra "génio". É que não é bem a mesma coisa porque um génio é um Da Vinci ou um Einstein e uma pessoa engenhosa é um MacGyver ou um dos tipos da Missão Impossível. Perde-se qualquer coisa.
Estava eu a deambular por estes pensamentos mais ou menos interessantes quando me ocorreu perceber até que ponto é que estou rodeado de génios. "Que espécie de problema do quotidiano, todos têm de resolver ?". Nesta altura do ano a resposta é fácil, vencer as moscas que com o calor leve do Outono e depois de alguma chuva decidiram contratar um batalhão de cegonhas, em Paris. Como não é de todo agradável uma pessoa estar a trabalhar com uma série de pequenas e noviças moscas à sua volta, cada um foi arranjando o seu método de combate.
De todos eles, eu deverei ser o mais arcaico, porque tinha a sorte (apenas nesta aspecto, porque eu não sou nenhum bicho-do-mato) de estar num gabinete separado de todos os outros, o que me permita ter a porta sempre fechada sem grande celeuma. Conclusão, não havia perigo de ataque por parte da bicharada. Elas bem andavam nas janelas, mas nada.
Até hoje. Alterações no organigrama levaram a que fosse instalado no centro da confusão (o que, confesso, gosto mais) mas não deixei de reparar que esta história de viver em comunidade tem os seus pontos fracos, como por exemplo, o de haver sempre alguém que deixa uma porta ou janela abertas. Esta oportunidade de ouro é aproveitada pelo pequeno andarilho voador, que entra a seu bel-prazer nos gabinetes. Assim sendo, precisava de uma solução rápida. Acabei por criar o meu "kit mata-moscas", com resultados um pouco duvidosos. Trata-se apenas de um punhado de folhas antigas enroladas e agrafadas capazes de provocar um ligeiro temor no bicho. Mas não muito.
Um pequeno parentesis, reparem no cadeirão que herdei. Um mimo.
Adiante.
Posto o problema e uma pitada de curiosidade, decidi saber de que forma as pessoas resolviam o mesmo drama. A verdade é que ainda acaba por existir alguma variedade, e para além de um grande número de adeptos do esquema da "solitária" (completamente isolados do mundo), existem já uns quantos maduros que compraram um simples mata-moscas. E pelo que parece até funciona.
Mas tem um tremendo defeito. Obriga a alguma acção. E apesar de todos nós descendermos (há uns bons milhares de anos, outros parece que há menos..) de pessoal que gostava de caçar (e agora perdoem-me os termos) à pazada, cronhada, abronhada, arrifanfada, pedrada, paulada e outros que tal, numa altura em que o zagalote era ainda uma miragem, uma coisa do futuro, hoje em dia não fará o mesmo sentido. Se pudermos evitar, melhor. É mais civilizado. Falo por mim que não tenho qualquer prazer em matar um bicho, por mais chato que ele seja (mas mato, eles são insuportáveis). Dentro deste raciocínio deparei-me com o quase campeão do dia, que decidiu encher o gabinete com sacos de plástico cheios com água. Que isto pega moda em imensos cafés de estrada pelo sul do meu país, já eu tinha reparado, agora que um espantalho disforme e translúcido, surta algum efeito nas moscas, eu ainda não tenho provas. Mas ia levar o prémio mesmo assim, porque tem um lado de criatividade que tem de ser respeitado, além de que fica um ambiente com imensa pinta, quase zen.
Mas não.
O prémio da resolução tinha outra morada. Quando alguém consegue juntar numa solução palavras como "eficácia comprovada", "espectáculo garantido", "algum trabalho inicial com retorno a curto prazo", "prata da casa", "espécies autóctones" e "baixo custo", então merece a nossa atenção.
Meus senhores apresento-lhes o armário de arrumação de livros, dossiers, material diverso e .. uma espécie de micro "jurassic park"
Marrocos é um país de bicharada diversa. Não é um espanto que seja fácil desencantar "free of charge" um par de amorosos camaleões. Estes são o predador ideal de moscas, solucionadores potenciais do nosso problema. Mas falta mais. Precisam de um lar.
Para isso poderíamos gastar uma pipa de massa, ou simplesmente apanhar um saquinho de terra (aqui há muita e não cobram por isso), umas madeirinhas (quando se tem a topografia por perto é fácil), umas caixas, uns pauzinhos e um bocado de rede. E está criado o habitat natural dos seres, que nesta fase já se julgam no Panamá, tal é a qualidade do seu cantinho.
Mas falta algo mais. A motivação.
Se nos dessem uma super casa e depois dissessem "olhe, tem de ir trabalhar, mas para isso é obrigado a fazer algum alpinismo todos os dias..". Começava a ficar esquisito. Para que estes dois se sentissem motivados na sua labuta diária, foi criado um caminho, com bocados em madeira. Em mente estava a ideia de que o "casal" pudesse dar a sua voltinha do dia, sem stresses e sem euforias, em direcção ao seu repasto.
Por fim o almejado "buffet", com direito a vista sobre a vida do estaleiro.
Em muito pouco tempo vi um deles a falhar duas moscas e a apanhar uma terceira, com aquela língua compridíssima. Verdadeiro maná de vida selvagem.
Agora digam-me com toda a sinceridade.
Isto é engenhoso ? Não, é mesmo de génio.
É óbvio, estamos em Marrocos, "nous travail toujours avec le génie"!
PS - Diogo não te assustes, isto é tudo a brincar. Este estaleiro é um sítio impecável, super normal e praticamente 5 estrelas. Amanhã cá te espero, boa viagem !
5 comentários:
¿Un "dragón" en la ventana?
hola !
Eso es un camaléon para comer las moscas que estan en la ventana. Un metodo inventado por nuestras personas aqui en Marruecos.
Muy bueno !
El gran escritor gallego "Ben Cho Sey" estuvo en la tropa, en Marruecos, y se asombró por la cantidad inmensa de insectos que había en el Rif marroquí.......
Saludos.
E há quem pague um dinheirão para ir ao "cirque du soleil",com espectáculos desta qualidade aqui e completamente à borla !...
Joaquim.......¿Conoces yabiladi.com?
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