11 de outubro de 2008

JSB - IMINTANOUT UNDER SIEGE

Costuma-se dizer que "uma imagem vale por mil palavras".

Num dia normal, eu não seria apologista desta afirmação porque ouvir ou ler permite-nos explorar uma das capacidades que melhor nos distingue dos outros seres, a imaginação. O caso prático que agora me lembro é a comparação entre um bom livro e um bom filme, onde o primeiro tem (pessoalmente) vantagem em relação ao segundo. Mas há casos que efectivamente tenho de concordar. Só podemos imaginar aquilo que os nossos sentidos nos possam já ter transmitido, mesmo que apenas parcialmente. Uma imagem tem a capacidade de nos mostrar a forma das coisas, num determinado espaço e num determinado tempo.

Quando as pessoas me perguntam o que acho da minha experiência em Marrocos, acabo inevitavelmente a tentar explicar o quão extremo é este clima. Tem-me marcado. É como se aqui o Homem fosse realmente mais frágil, mais susceptível ao humor da Natureza. Já tenho referido as temperaturas acima dos 50ºC e os pequenos tornados. Já poderia falar do frio nocturno à prova de toda a roupa (a fazer lembrar aquele frio impetuoso das noites de Golegã) ou das tempestades de areia/pó (que simplesmente param uma obra). São daquelas coisas que por nos serem estranhas, são difícieis de imaginar.

Já a chuva não é novidade e uma grande trovoada, embora imponha o seu respeito, não mete medo a ninguém (a não ser a mim quando era pequenino e à minha cadela Buba que acaba por ter os meus outros animais a olhar para ela com aquele ar de "não se aguenta o histerismo.."). Quando estamos em casa, com a nossa lareira, uma trovoada chega a ser um complemento perfeito, quase essencial.

Seguindo esta linha de raciocínio, quando num tópico anterior falei numa destas trovoadas do interior marroquino, suspeitei que não iria ser capaz de transmitir o impacto de um fenómeno destes, e ocorreu-me procurar imagens que o conseguissem.

Alguns dias atrás, decidi ir dar uma corrida ao fim da tarde e reparei que na zona da montanha (a cerca de 10 km) estava a chover bastante. Pensei que estava com sorte porque estava ali tão perto e nem uma gota de água em cima do atleta. O que eu não sonhava é que mal cheguei ao estaleiro me dizem que os portugueses a tomar café em Imintanout, estavam lá presos por causa da força das águas. Era impossível acreditar que a uma distância tão curta, uns corriam ao sol e outros estariam em aflição com a chuva. Decidimos ir ver. O passeio durou 5 minutos, porque logo à saída do estaleiro estava acabado de "inventar" um rio que galgava a estrada e já tinha arrastado um carro para o campo. Percebemos que era a sério. Restou-nos esperar, chegou a noite. Improvisaram-se camas para os que estavam longe das suas.

No dia seguinte parti para Portugal. A estrada destroçada, onde lama e pedras tinham substituído o pavimento. Um taxi amolgado e abandonado no meio do campo denunciava uma noite dura. Começaram a chegar imagens chocantes do dia seguinte em Imintanout. O caos. Além da enxurrada, juntaram-se alguns deslizamentos de terra e pedras, a partir das montanhas onde a vila se decidiu encaixar. Foi fatal: pessoas desaparecidas (até ao momento o valor era superior a 30), carros e materiais arrastados, casas e mercados destruídos.


Para finalizar, como uma manobra de pudor pelos seus actos de violência contra Imintanout, a Natureza decidiu trazer o sol e com ele o arco-iris. Sinal de paz. Em dois dias, quase tudo estava seco. Ficam as pedras, a sujidade, os destroços e as pessoas. Imintanout está pronta a seguir a sua vida. É assim que funciona por cá.


Nem todos os dias se podem escrever coisas para se rir. Nunca, depois de ver estas imagens que tanto mexeram comigo. Já vou conhecendo estas pessoas, a sua forma de viver, as suas dificuldades, a sua miséria. Entretanto voltei a Imintanout e, apesar de embirrar um pouco com a essência desta gente e não compreender de todo a sua cultura, tenho de me confessar surpreso e bem impressionado com a única coisa que não se alterou: o sorriso na cara de todos eles. Contado ninguém acredita, é incrível.

1 comentário:

Anónimo disse...

Primão meu campeão...não está fácil por ai, está visto...

Um abração