120 dias
O dia de hoje, pelo seu céu azul e frio intenso, contrasta na perfeição com a primeira impressão que tive deste lugar. No dia 20 de Agosto, com 40 ºC e céu encoberto por uma estranha neblina castanha (na altura tive dificuldade em reconhecer como sendo apenas poeira), era dado o primeiro passo na minha aventura marroquina.
Tenho dado por mim a pensar de que forma é que a minha perspectiva das coisas poderá ter mudado. Começo pelo básico.
O clima. Será que já estou habituado? Parece que sim, mas não escondo a surpresa que é a de ter sofrido mais pelo frio do que pelo calor. Ainda estou a pagar pela minha displicência na escolha de camisas frescas em detrimento de camisolas e blusões. Achei que "1 ou 2 estavam óptimos..". Por mais que me contassem, quando cheguei e senti o abafo seco do deserto, nunca acreditei que poucos meses depois poderia ter esta vista alpina a partir do estaleiro
A gastronomia. O que dizer desta arte? Normal, aguenta-se. Não é como almoçar em casa ou jantar "naquele" restaurante em Lisboa, mas a verdade é que à excepção de algum borrego a mais (ah surpresa) come-se muito bem por cá. Também é preciso algum espírito e gostar de molhos e condimentos. A cozinha marroquina faz-se sobretudo destes. Obrigatório acompanhar com pão (de preferência "baguette" já que eles foram fiéis discípulos dos franceses nesta arte). Imbatíveis são os sumos de laranja. Ainda não descobri em Portugal um fenómeno igual, as laranjas marroquinas parecem-me sinceramente melhores e sobretudo com uma presença invejável em pleno Inverno. A nível marítimo, a pesca cá parece ter a mesma feição que a nossa teve há alguns anos. Não conheço em detalhe os níveis tecnológicos das fainas magrebina e lusitana para fazer uma melhor comparação, mas a imagem de uma lota cheia, muita vida, a escolha "in situ" de peixe à saída das redes e a mistura de cores e sons de centenas de barcos antigos emaranhados no porto, lembram a imagem que eu tinha destes locais em Portugal. Pessoalmente, um dos melhores exemplos é Essaouira, onde se come realmente muito bem.
A religião. Tenho uma opinião muito própria, típica de quem tem pensado no assunto, embora sendo um imberbe na matéria. O Islamismo pela sua génese é uma espécie de irmão mais novo do Cristianismo. Tal como qualquer história fraterna, o tempo encarregou-se de acentuar as diferenças entre ambos, sobretudo numa altura em que um deles parece ter amadurecido mais facilmente as alterações sociais sofridas nos séculos XIX e (sobretudo) XX (talvez pelo facto de que as nações motoras dessas revoluções sociais serem cristãs e não muçulmanas). Assim entramos no século XXI e a sensação que tenho é a de que este país vive a sua religião de uma forma semelhante à praticada nos países europeus até ao século XIX. Muito pouco flexivel, intrusiva, a funcionar na base da culpa e/ou castigo. Com denúncia. Não nos passa pela cabeça sermos apontados por falhar o jejum da Quaresma ou faltar a uma missa de Domingo. Um muçulmano que falhe alguma das suas obrigações religiosas é notoriamente mal visto. Pode ser condenado. Existe um controlo recíproco fortíssimo e sente-se essa pressão. Quando comecei a perceber o funcionamento deste povo, comentava em tom de brincadeira que era comparável às quezílias que as velhinhas beatas arranjam umas com as outras "..porque a Maria Amália hoje falhou a missa das 16h30, deve estar na farra, a sonsa..". A minha educação religiosa convence-me de que este não é necessariamente o melhor caminho para a Fé. Não o sinto tão natural. Mas eu não podia pensar de outra forma, nunca deixaria de acreditar, só por estar longe de uma capela e de um padre. A esta hora estariam as senhoras beatas a olhar para mim e a pensar "..um sandeu, um herege que se foi enfiar no único canto do mundo onde não há missa..". Mas penso muito Nele, acreditem.
Por fim, o povo, a cultura e a vivência marroquinos. Isto é pessoal que obriga a alguma "habituação". Entre os outros povos de lingua árabe, são os únicos que percebem todos as outras formas de árabe, mas queixam-se que os outros não entendem o dialecto deles. Têm uma filosofia comercial fortíssima, e acreditam que tudo pode ser vendido. Tudo tem um preço. A isto juntam um toque mercantilista e o resultado são operações logísticas complicadíssimas onde quase ninguém é especializado em nada, mas todos sabem um pouco de tudo e quando não sabem, conhecem quem sabe (e cobram-nos por isso). São o último país, bem periférico no mundo árabe, aquele povo meio "autista" que sempre viveu mais virado para o mar do que para terra. E se a isto acrescentar o pormenor que quase todos eles têm na sua essência o "tipo porreiro" que nos dá imensa conversa e ao mesmo tempo o "pobre coitado" cuja vida está cheia de azares (e por isso merecedores da nossa atenção e ajuda), começamos a sentir que isto nos faz lembrar qualquer coisa... Caricaturar o povo marroquino é como caricaturar o nosso. E julgo que é por isso que nos parecem tão difíceis de compreender. Não estamos habituados a ter de explicar como se devem organizar, a ter de aturar as suas aldrabices, fitas e esquemas. Não gostamos de sentir que há um Youssef mais esperto que um Chico (o chico-esperto leia-se) e isso dá-nos cabo dos nervos. De alguma forma sentimo-nos um pouco nórdicos neste país.
Mas nunca mais se falou do que me trouxe aqui.
A vida pelo estaleiro mantém o seu encanto. Numa fase da sua existência de verdadeira velocidade cruzeiro, a obra aparenta ter vida própria através da evolução ao longo de toda a sua extensão, numa espécie de "fábrica" com 13 km de comprimento. Toda a gente sabe o (muito) que há a fazer. Apesar da minha pouca experiência, diria que foram vencidos todo o género de desafios da Natureza, diferenças culturais inerentes e desafios técnicos. Sobra-nos o desgaste humano. É altura do Natal, pensa-se ainda mais nas pessoas que se deixaram em Portugal, sofre-se de algo muito nosso, a Saudade. Se serve para tantos fados, serve também para se perder algum tempo a pensar nisto. Como diria o Miguel Esteves Cardoso (num livro que a minha tia me ofereceu e já devorei) somos movidos por uma vontade forte em fugir para fora mas, quando lá estamos, damos por nós a contar os dias para voltar. É nosso. Temos a força e o espírito para nos aventurarmos mas nunca nos larga uma sensação de incompleitude. Provavelmente fomos herdando. Se por um lado fomos capazes de "descobrir" o mundo e "torná-lo" tão redondo como o conhecemos hoje (um planisfério com fim abrupto, era uma fonte de grandes histórias de marinheiros, mas não era real), por outro nunca deixámos para trás a nossa raiz. Porque voltamos sempre? Talvez porque esta terra nos custou a conquistar aos "nuestros hermanos", aos "salamalekums", ou a qualquer desgraçado que tenha tido o azar de estar à frente. Ou porque é simplesmente o nosso canto e é lá que queremos estar. É bom.
Está quase a chegar o momento em que uma pequena armada lusitana regressa a casa. O ambiente fica mais leve, mais sorrisos na cara, maior espaço a brincadeiras. É contagiante. Já falta pouco, muito pouco mesmo.
A obra tem algumas novidades. Há já bastantes semanas que a empreitada do túnel venceu a brutal escavação e pôde finalmente dar à montanha o aspecto de túnel na frente Norte

Na área das terraplenagens continua a modelar-se a paisagem de uma forma quase faraónica


Nas obras de arte, foi lançada a primeira viga no tabuleiro do nosso maior viaduto


Note-se o ar atento (não escapa nada)

Mas irresistível mesmo são estes pormenores

Esta obra é um mimo.
UM GRANDE ABRAÇO
Por fim, o povo, a cultura e a vivência marroquinos. Isto é pessoal que obriga a alguma "habituação". Entre os outros povos de lingua árabe, são os únicos que percebem todos as outras formas de árabe, mas queixam-se que os outros não entendem o dialecto deles. Têm uma filosofia comercial fortíssima, e acreditam que tudo pode ser vendido. Tudo tem um preço. A isto juntam um toque mercantilista e o resultado são operações logísticas complicadíssimas onde quase ninguém é especializado em nada, mas todos sabem um pouco de tudo e quando não sabem, conhecem quem sabe (e cobram-nos por isso). São o último país, bem periférico no mundo árabe, aquele povo meio "autista" que sempre viveu mais virado para o mar do que para terra. E se a isto acrescentar o pormenor que quase todos eles têm na sua essência o "tipo porreiro" que nos dá imensa conversa e ao mesmo tempo o "pobre coitado" cuja vida está cheia de azares (e por isso merecedores da nossa atenção e ajuda), começamos a sentir que isto nos faz lembrar qualquer coisa... Caricaturar o povo marroquino é como caricaturar o nosso. E julgo que é por isso que nos parecem tão difíceis de compreender. Não estamos habituados a ter de explicar como se devem organizar, a ter de aturar as suas aldrabices, fitas e esquemas. Não gostamos de sentir que há um Youssef mais esperto que um Chico (o chico-esperto leia-se) e isso dá-nos cabo dos nervos. De alguma forma sentimo-nos um pouco nórdicos neste país.
Mas nunca mais se falou do que me trouxe aqui.
A vida pelo estaleiro mantém o seu encanto. Numa fase da sua existência de verdadeira velocidade cruzeiro, a obra aparenta ter vida própria através da evolução ao longo de toda a sua extensão, numa espécie de "fábrica" com 13 km de comprimento. Toda a gente sabe o (muito) que há a fazer. Apesar da minha pouca experiência, diria que foram vencidos todo o género de desafios da Natureza, diferenças culturais inerentes e desafios técnicos. Sobra-nos o desgaste humano. É altura do Natal, pensa-se ainda mais nas pessoas que se deixaram em Portugal, sofre-se de algo muito nosso, a Saudade. Se serve para tantos fados, serve também para se perder algum tempo a pensar nisto. Como diria o Miguel Esteves Cardoso (num livro que a minha tia me ofereceu e já devorei) somos movidos por uma vontade forte em fugir para fora mas, quando lá estamos, damos por nós a contar os dias para voltar. É nosso. Temos a força e o espírito para nos aventurarmos mas nunca nos larga uma sensação de incompleitude. Provavelmente fomos herdando. Se por um lado fomos capazes de "descobrir" o mundo e "torná-lo" tão redondo como o conhecemos hoje (um planisfério com fim abrupto, era uma fonte de grandes histórias de marinheiros, mas não era real), por outro nunca deixámos para trás a nossa raiz. Porque voltamos sempre? Talvez porque esta terra nos custou a conquistar aos "nuestros hermanos", aos "salamalekums", ou a qualquer desgraçado que tenha tido o azar de estar à frente. Ou porque é simplesmente o nosso canto e é lá que queremos estar. É bom.
Está quase a chegar o momento em que uma pequena armada lusitana regressa a casa. O ambiente fica mais leve, mais sorrisos na cara, maior espaço a brincadeiras. É contagiante. Já falta pouco, muito pouco mesmo.
A obra tem algumas novidades. Há já bastantes semanas que a empreitada do túnel venceu a brutal escavação e pôde finalmente dar à montanha o aspecto de túnel na frente Norte
Na área das terraplenagens continua a modelar-se a paisagem de uma forma quase faraónica

Nas obras de arte, foi lançada a primeira viga no tabuleiro do nosso maior viaduto
Note-se o ar atento (não escapa nada)

Mas irresistível mesmo são estes pormenores
Esta obra é um mimo.
UM GRANDE ABRAÇO
9 comentários:
Como já não me lembro da porcaria da password...tenho de deixar um comentário anónimo.
Continuas a viver a tua aventura não é meu pequenino?
E nós cá te esperamos de braços abertos...
Um abraço
Primão
Obrigado joaquimpédia, pela fantástica descrição do país onde, agora, habitas!
Vamos ao essencial Joaquim, como é de gajas? Safas ou estas como o Rato e Mourão? Constantemente a levar negas ou a experimentar novas sensações homosexuais?
Andas a escrever bem, uma escrita interessante e fácil de acompanhar....gosto!
continua a divertir-te e, principalmente, a trabalhar que nem um cão...
grande abraço David, o do allstars, aquele que vias sempre no lux e por todo o lado onde andavas!
Oi Joaquim! Acabo de ler-te... gostei muito!
Um beijinho de uma outra "emigrante"... (mas esta praticamente eterna)...
Luiza
E sai um pastel para cada uma das mesas ...
Primão, continuas igual a sempre mas mais champ com ... woo calma
Dave, aposto que agora és o maior do allstars e do lux. Deves estar quase a vir a Marrocos nao? Estou igual ao Mourao e ao Rato mas maior e com mais futebol nos pés (respectivamente)
Luiza, nem acredito que por aqui passes! Bem disposta? Por andas agora?
ABRAÇOS A TODOS
Vê-se mm que o o Senhor Engenheiro nunca comeu um belo prato típico marroquino...a bela Pastilla!
-Ce bonne la pastilla?? (nós tugas)
- Oui, oui! Ce un panado... (empregado restaurante)
...
Qual panado qual quê!! era um folhado de carne com açúcar e canela por cima! dp envio foto para expores! ;)
ps: prova este belo repasto e dp faz um post acerca de pastilla!
grande abraço e dá-lhe gás!
Meus Grandes Maduros!!!
(nota de entrada: dave qual é a tarifa que cobras no teu taxi do marquês à alameda? CALMA)
Jojolindo , marrocos é um sitio bonito cheio de gente bonita com beleza em todo o lado..... mentira!!.. mas a nossa viagem à tua segunda terra foi brutal.. gostei de tudo , de todos os sitios onde tivemos, paisagem e pessoas mas logicamente o que gostei mais foi da parte em que te vi, qual raio de sol africano!! Quem sabe se não levas outra vez com a armada tuga em marrocos mesmo antes de regressares!!
Diogo , sempre disponível para ajudar a encontrar spots e tal.. mas decorar as ruas é que ta quieto.. SÃO SÓ UMAS 20 MOHAMEDS PARA DECORAR!!!
Aguentem firme meus animais!!
fortissimo abraço
Miguel "O Poeta" Rato
ps: gustavo já não te lembras da pass pq doente como és já deves ter mudado umas 40xs , não vá o homem das pizzas roubar o teu net id ... CALMA!!
Katita, fiquei sem resposta...sabes q eu tenho de mudar de vida de 15 em 15 dias...tem de ser..se me amas...habitua-te.
Joaquim já não escreves? Estive hoje de manhã em Leiria numa reunião. Estavam -7ºC!!! Impecavél!Está tudo bem meu pequenote? Por cá a crise continua a afectar-nos a todos menos ao Ratone que continua em grande...não voltes miudo!
Nâo precisam ai de um gestor? Eu vou....
Abraço sentido e apertado!
Não sabia que de Marrocos se viam os Alpes...
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