2 de novembro de 2008

JSB - RECUERDOS (E ALGUMA ORDEM NISTO)

"Ladies and Gentlemen, this is your captain speaking..."

Avião cheio. Completo alvoroço. Espaço exíguo per capita. Entre perguntas curiosas de uma criança e histórias de quem tem mais milhas aéreas que a águia Vitória (ver "secção de dúvidas"), somos ainda desafiados a apreciar a explicação (em mais do que uma língua) de como proceder em caso de despressurização, aterragem sem trem, com pouco (ou sem) motor, amaragem, descoberta dos coletes, etc etc. Entretanto já tivemos de desligar o telemóvel, colocar a cadeira na posição correcta e amarrar-nos com o cinto. Admirável Babel dos tempos modernos. Verdadeira loucura mental.

Ouve-se por fim a frase que começa este texto. A serenidade.

Decidi escrever uma secção de "Recuerdos" com o mesmo intuito. Têm estado noites de grande temporal, há tempo e uma vontade enorme de contar e arrumar uma série de histórias que foram ficando para trás. É que entretanto chegou o Diogo e nunca mais agarro este processo, porque os dois juntos parecemos "dois putos sempre a inventar". E o pior é que já não posso andar no exagero e na aldrabice. Agora já tenho uma testemunha e é preciso um pouco de tranquilidade.



Como um Comandante em busca de trazer alguma paz aos seus arquivos, pareceu-me bem começar pelo primeiro rebuçado , a "Estreia do Pórtico". Tínhamos um brinquedo novo e ainda algumas dúvidas sobre se aguentaria bem perto da sua carga de segurança. Assim fez-se um 2 em 1 e experimentou-se com a belíssima carga de um bulldozer. Mas o que mais me atraiu neste episódio foi que tive a oportunidade, de pela primeira vez, aparecer para a posteridade como sendo um orientador de operações (onde afinal era apenas um mirone, que génio!).

Na verdade estava a servir de escala para a fotografia. É que por nesta altura já as pessoas de cá estavam fascinadas com o meu porte físico e perceberam a potencialidade de juntar dois colossos numa só imagem. Dava força e transmitia uma sensação de fiabilidade. Resultado, uma das minhas fotografias favoritas.


A segunda pérola que me lembrei de partilhar é a da mítica "Passeata de Turismo pela Obra".
Num inspirado Domingo à tarde, um pequeno grupo de excursionistas (que incluia um Malaio e um português porreiríssimo, o João) decidiu dar um passeio. A ideia era visitar aqueles locais remotos, as vistas fabulosas e os pequenos tesouros que se perdem com o stress do dia-a-dia. Partimos à descoberta.

Um dos "case-study" mais badalados da nossa empreitada é a de uma pequena montanha que se está a mover. Se não acreditam venham espreitar. Uma parte teve já movimentos de deslize que aconteceram em poucas horas, com direito a máquinas paradas, segurança reforçada e alteração do projecto. Isto a nível geológico é de uma velocidade alucinante e era capaz de provocar algo parecido ao reboliço de Wall Street, no dia-a-dia de um geológo.

Depois de fustigados por um vento fortíssimo continuámos o "tour" e decidimos ir a um dos miradouros que normalmente só está acessível à maquinaria pesada das terraplenagens.

Tempo ainda para uma passeata a um dos encontros do viaduto PK 96, ex-libris da obra

E por fim a grande revelação do nosso colega Malaio. Quando viu uma das casas berberes quis saber mais. Questionou, indagou, espreitou. Só se acalmou quando efectivamente entrou lá para dentro.


Inevitavelmente acabámos por ceder.


Note-se que nesta fase temos uma pessoa de sorriso na cara e outra em pânico com os bichos.
Enfim, são coisas normais que acontecem a pessoas normais. Ou talvez não, mas é mais confortável para mim pensar que sim.

Um terceiro recuerdo que não pode ficar no esquecimento, já tinha por cá o Diogo. Acabado de chegar, ainda não sabia o que era o clima "en tierras del marrocain". Demorou um dia. Depois de um típico e simpático passeio pelo souk de Marrakech, começámos a perceber que talvez não fosse má ideia começarmos a ir para o carro. É que de cidade "quente e abafada" só mesmo a fama, pois naquela altura Marrakech estava a transformar-se numa espécie de Manaus do Magreb africano.

Iniciámos um passo rápido, mas o souk é um mundo que não permite veleidades e o conceito de corta-mato é só para batidos. Uma azáfama de pessoas, coisas, cores, cheiros. Uma sucessão de becos, caminhos, recantos e ruelas. Diz-se que em Marrakech se vende tudo. Basta procurar. É também isso que faz com que uma mesma rua mude de aspecto várias vezes ao dia. Passeiam-se motas, burros e carrinhos-de-mão pelo meio das pessoas. Pequeno caos. Mas naquele momento só queríamos a saída sem apanhar demasiada chuva. Assim estivemos cerca de 15-20 minutos a refazer o caminho todo em sentido inverso, com os devidos enganos envolvidos e as célebres dúvidas existênciais "hmm eu tenho a certeza que passámos nesta banca.. quer dizer.. olha seria antes aquela rua..?". Foi uma questão de tempo. De repente a luz do dia e a praça. Estavamos em liberdade! A chuva devia estar no mesmo espírito porque não parava de cair.


Na praça à frente do mercado, uma enorme confusão de gente, completamente alheados da tempestade que se avizinhava. Este povo tem uma obcessão por comércio. Só vêm Dirhams, Euros, Dollares, o que lhes quisermos dar. Em troca arranjam tudo o que têm e ainda o que não têm. Se nos distraímos demasiado, com muita facilidade temos aos ombros uma cobra (de algum porte, digamos..) e ainda antes de nos assustarmos já temos uma fotografia e um pedido de dinheiro. Admirável. Não foi o nosso caso (felizmente), porque apesar de se notar que não somos de cá, falha-nos qualquer coisa como turistas.

O que não impediu de mesmo assim acelerarmos o passo ao ponto de começarmos mesmo a correr em direcção ao nosso "amigo" arrumador de carros, que muito amavelmente estava à nossa espera. É que cá o "carouxo" profissional recebe à saída. 5 Dirhams mais pobres e seguimos. Mas não muito. Se conduzir na zona antiga é uma loucura, acrescentando a chuva torna-se um feito épico. Não admira que tenhamos demorado uma eternidade a chegar à saída da cidade, e que entretanto tenha sido possível ver fenómenos de cheia um pouco por todo o lado. Em pouco mais de meia-hora, Marrakech bloqueou com a água.


Desconheço se este povo rezará mais para que chova ou para que pare de chover. É que apesar de tudo, quando é tempo de seca, tudo está mais controlado. Não cresce nada nos campos, os animais comem pouco, existe pó no ar.. ok.. uma pessoa já sabe, é assim sempre. É previsível. Agora se chove, um dia bom de mercado pode-se transformar num pesadelo de mercadoria em trânsito fluvial, uma viagem numa novela, uma obra num pequeno desastre. É realmente um clima impetuoso.

Algumas buzinadelas depois, estávamos de regresso à estrada para Agadir em direcção a casa. Para se ter noção da sorte com o "timing" que tivemos, acrescento que um amigo nosso que fez a mesma estrada pouco tempo depois, ficou preso e ganhou o direito a uma noitada dentro do carro. O cenário era simpático, alguns rios galgaram a estrada, arrastaram veículos e ganhou-se um Domingo animado. O mais incrível é que o bom marroquino não perdeu tempo, arregaçou as calças, agarrou num pau e começou a cobrar dinheiro por ajudar os carros a atravessar os leitos enquanto lhes indicava os buracos. Hmm, era só uma chuvita e um Dirham é um Dirham.



Um último mas pequeno apontamento. O departamento de análise estatística da Hola Magreb ! sente-se na obrigação de comentar a última votação.

Face ao desafio proposto aos leitores, de se debruçarem sobre o Fado da vida de D.Sebastião, chegou-se à conclusão (por votação massiva) que a maior alteração na vida dos portugueses, no caso de sucesso d´el Rei seria a nível gastronómico, suplantando o nível literário, aeronáutico, futebolístico e social. Isto é informação de grande relevância que tencionamos enviar para o I.N.E. tanto quanto antes. Não deveremos dramatizar demasiado a história de Alcácer Quibir, porque se tivéssemos de comer tagines em Alfama andaríamos agora a chamar às sardinhas e entremeadas grelhadas "os Desejados". Acreditem, sabemos do que estamos a falar.

SECÇÃO DE DÚVIDAS
Se alguem chegou a perguntar "..mas afinal quem é a águia Vitoria?" aconselho a espreitar o link: http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81guia_Vit%C3%B3ria

UM GRANDE ABRAÇO

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